A batalha de Spartivento – 27 de novembro de 1940
O porta-aviões HMS Furious foi enviado ao porto de Tokoradi, no Golfo de Guiné, para entregar diversos Hurricanes, em dezembro de 1940. De lá, após a longa viagem via continente africano, o navio alcançaria as bases britânicas no Egito. Entretanto infelizmente, haviam ocorrido também grandes perdas de materiais e de pessoal técnico e, sem estas pessoas e materiais, as aeronaves mal poderiam operar. Para providenciar a imediata e necessária reposição, a Grã-Bretanha criou a Operação Collar, que tinha como finalidade transferir pessoal da RAF e equipamentos, através do Mar Mediterrâneo, a bordo de cruzadores e de navios velozes.
A Operação Collar teve início no dia 12 de novembro, quando os cruzadores HMS Manchester e HMS Southampton partiram da Grã-Bretanha, juntamente com o New Zealand Star. Ao mesmo tempo, outro comboio partida, composto pelo transporte Franconia e pelos navios mercantes Clan Forbes e Clan Fraser.
Em Gibraltar, o HMS Manchester e o HMS Southampton embarcaram os 1370 técnicos da RAF, originalmente embarcados no Franconia. Em seguida seguiram ao encontro do Clan Forbes, Clan Fraser e do New Zealand Star, que já haviam cruzado o estreito. Os dois navios mercantes limitavam-se a aportar em Malta. Já o New Zealand Star seguiria viagem a partir de Malta com a escolta reforçada pelo destróier HMS Hotspur e pelas corvetas Gloxinia, Hyacinth, Peony e Salvia. O grupo de escolta passou então a ser denominado “Força F”.
Uma vez o comboio tendo entrado no Mediterrâneo, o vice-almirante Somerville partiu de Gibraltar com sua “Força H”, que para os efeitos da Operação Collar passou a se chamar “Força B”. Era composta pelo porta-aviões HMS Ark Royal (tendo embarcados 12 Skua, 12 Fulmar e 30 Swordfish), pelo cruzador de batalha HMS Renown, pelos cruzadores HMS Sheffield e HMS Despatch, além de nove destróieres.
Quando o comboio composto pela “Força F” tomou rumo próximo à costa da África do Norte, a “Força B” proporcionou cobertura. Ao mesmo tempo em que estas manobras se davam no lado ocidental do Mediterrâneo, a frota do almirante Cunningham iniciou movimentação no lado oriental do Mediterrâneo.
No dia 23 de novembro, o comboio M.W.4, composto pelo transporte Breconshire e pelos cargueiros Memnon, Clan Ferguson e Clan Macaulay, partiram de Alexandria para Malta, escoltados pelos cruzadores HMS Calcutta e HMS Coventry e por quatro destróieres da “Força D”. A cobertura deste comboio se deu pela “Força C”, composta pelo encouraçado HMS Ramillies, porta-aviões HMS Eagle, cruzador pesado HMS Berwick, cruzadores leves HMS Orion (capitânea), HMS Ajax e HMS Sydney, além de outros sete destróieres. A oeste de Malta, o HMS Ramillies e o HMS Berwick receberam ordens para deixarem a “Força C” e se juntarem à “Força H” (o HMS Ramillies deveria se juntar à Home Fleet para escoltas no Atlântico e o HMS Berwick iria se juntar à “Força K” em Freetown).
Quando o comboio M.W.4 e as Forças “C” e “D” dirigiam-se a Malta, ao norte de Creta, o grupo principal da Frota do Mediterrâneo, sob o comando do almirante Cunningham, denominado “Força A”, partiu de Alexandria, no dia 25 de novembro, para encontrar-se com a “Força B” e o comboio “Collar”, ao sul da Sardenha. A “Força A” era composta pelo porta-aviões HMS Illustrious, encouraçados HMS Warspite e HMS Malaya, além de oito destróieres.
A “Força A” se uniu em mar, ao 3º Esquadrão de Cruzadores, composto pelo cruzador pesado HMS York e pelos cruzadores leves HMS Glasgow e HMS Gloucester.
Na manhã do dia 26 de novembro, o HMS Illustrious, o HMS Glasgow, o HMS Gloucester e mais 4 destróieres deixaram a “Força A” para lançarem um ataque aéreo contra a base italiana de Portolago, na Ilha de Lero.
Ao contrário do que Winston Churchill havia dito, a esquadra italiana não havia sido destruída pelo ataque a Taranto, ocorrido na noite do dia 11 de novembro e, no dia 26 o vice-almirante Camponi partiu de Nápoles com uma força composta por dois encouraçados, seis cruzadores pesados e quatorze destróieres, para interceptar o comboio “Collar”.
Neste dia o comboio M.W.4 aportava Malta em segurança, enquanto que o HMS Ramillies e o HMS Berwick, agora em companhia do cruzador leve HMS Newcastle continuavam sua viagem de retorno junto à “Força H” e, a Frota do Mediterrâneo iniciava seu retorno a Alexandria. A situação se manteria assim até a manhã do dia 27 de novembro, quando Somerville soube que uma força italiana estava no mar.
Os britânicos tinham uma significativa vantagem em fogo pesado, contando com quatorze canhões de 381mm (15 pol) no HMS Ramillies e no HMS Renown, contra apenas nove canhões de 381mm (15 pol) no Vittorio Veneto, entretanto este último tinha o auxílio de 10 canhões de 320mm (12,6 pol) do Giulio Cesare. Em contrapartida, os italinos dispunham de seis cruzadores equipados com canhões de 203mm (8 pol), enquanto que os britânicos contavam com apenas um. Os cruzadores HMS Manchester, HMS Sheffield e HMS Southampton eram todos equipados com canhões de 152mm (6 pol).
O Vice-Almirante Campioni, aparentemente concluiu que um confronto com o inimigo não se daria em condições favoráveis aos italianos. Estavam ainda sofrendo a quebra da moral devido aos acontecimentos de duas semanas antes. Além disso, quando Campioni soube que o HMS Ark Royal também participava da força britânica, ficou extremamente preocupado.
Sommerville, por outro lado, tinha bem claras suas ações. Sua missão era defender o comboio e, para isso teria que atacar os italianos. Às 1145, Sommerville foi informado que a frota italiana se encontrava a apenas 50 milhas a frente. Quinze minutos antes disso já havia ordenado que seus navios entrassem em formação de batalha.
O HMS Sheffield ia à frente, seguido pelo HMS Southampton, HMS Newcastle, HMS Manchester e HMS Berwick; O HMS Renown vinha a cinco milhas dos cruzadores. O HMS Ark Royal, junto com os destróieres HMS Jaguar e HMS Kelvin, operavam separadamente e começaram lançando um grupo de Swordfish para atacar com torpedos os navios italianos.
O HMS Ramillies, capaz de desenvolver apenas 20 nós, ficou para trás, ficando numa posição intermediária entre o comboio e os cruzadores (comandados pelo vice-almirante Holland). Ele e os destróieres HMS Faulknor, HMS Firedrake, HMS Forester, HMS Fury e HMS Encounter, estavam encarregados de defender o comboio contra um possível ataque com torpedos por parte dos destróieres italianos.
O velho cruzador HMS Despatch, os destróieres HMS Duncan, HMS Hotspur e HMS Wishart e mais quatro corvetas, permaneceram junto ao comboio.
Às 1207 a frota italiana foi avistada: primeiro a fumaça, depois os mastros e finalmente as silhuetas dos cruzadores pesados Pola, Fiume a Gorizia. Eles vinham acompanhados por quatro destróieres. Em seguida, a três milhas a oeste deste grupo, foi avistado o segundo grupo de cruzadores pesados, composto pelo Trento, Trieste e Bolzano, e os encouraçados a 12 milhas a este-noroeste.
A esta altura Campioni tomou a decisão crítica: “Não engajar o inimigo”. Desde que partira de Nápoles, estava decidido a não entrar em batalha se as condições não fossem francamente favoráveis à força italiana. Seus dois encouraçados eram os dois únicos operacionais na esquadra italiana e estes não deveriam ser postos em perigo. Às 1207 ele ordenou que os cruzadores pesados retornassem e se juntassem aos encouraçados, porém a ordem chegou tarde demais ao vice-almirante Iachino, a bordo do Pola, que já estava manobrando para engajar os cruzadores britânicos.
Durante este fase, Sommerville pode organizar livremente suas próprias forças, Campioni por sua vez, pedia instruções a Roma via rádio, um detalhe da diferença organizacional entre as duas marinhas. Esta troca de mensagens encontrou um fértil campo de interpretações posteriormente. Alguns historiadores, assim como o respeitado almirante Fioravanzo, dizem que as comunicações são uma prova da intenção de engajar o inimigo. Outros historiadores, como Francesco Mattesini descrevem da seguinte maneira: “Enquanto Roma instruía Campioni a tentar evitar o combate, Iachino já disparava seus canhões”.
As 1222, o cruzador pesado Fiume abriu fogo contra os cruzadores britânicos. Imediatamente todos os três cruzadores do grupo abriram fogo. De acordo com as informações italianas, os navios britânicos encontravam-se a 23500 (12,7 milhas náuticas).
Os cruzadores Pola e o Fiume, engajaram principalmente o HMS Berwick. Este, junto com HMS Manchester, HMS Sheffield e HMS Newcastle, engajaram os cruzadores da 3ª Divisão (Bolzano, Trento e Trieste), enquanto que o HMS Southampton enquadrava sua mira no grupo do Pola.
As 1222, o HMS Berwick recebeu um impacto de uma Granada de 203mm (8 pol) na torre Y, colocando-a for a de ação e matando 7 tripulantes. Pouco tempo depois, as 1235, recebeu outro impacto, desta vez no alojamento dos oficiais, mas não houve nenhuma baixa. Mesmo com estes dois impactos diretos, o Berwick não reduziu seu fogo, tendo entrado em combate feroz, que durou todo o resto da batalha, contra um dos cruzadores do grupo do Pola.
As 1224 o HMS Renown entrou na batalha abrindo fogo contra o Trento, a uma distância de 21600 metros. Seis salvas caíram muito próximas ao navio italiano, levantando colunas de água. Este mesmo sem ser avariado valeu-se da cortina de fumaça e se evadiu da batalha.
Durante a batalha, o destroier Lanciere foi atingido diversas vezes, ficando imobilizado por algum tempo. A tripulação conseguiu reparar o necessário para poder se mover novamente e antes de ser novamente atingido. Levantou uma cortina de fumaça e partiu em direção à base. Seu atacante, o HMS Manchester, passou a atacar o Zara.
O HMS Ramillies abriu fogo às 1226, mas como ainda se encontrava muito distante, seus canhões não tinham alcance suficiente para acertar qualquer barco italiano.
Assim, o HMS Renown era a única plataforma britânica de fogo pesado útil no combate, sendo que seu principal alvo foi o Bolzano.
As 1230, Iachino finalmente recebeu ordens para abandonar a batalha. Ele ordenou que os navios aumentassem a velocidade para 30 nós e se juntassem aos encouraçados o mais depressa possível.
A esta altura dos acontecimentos, um comboio francês denominado “F” criou grande confusão para os navios britânicos. Quando os cruzadores da 3ª Divisão italiana levantaram a cortina de fumaça, dois navios de passageiros franceses estavam entrando na área. Assim que a fumaça começou a se dissipar, o Renown acreditando que se tratavam de dois navios italianos, enquadrou-os com seus canhões, mas felizmente pouco antes de abrir fogo, o almirante Sommerville reconheceu a silhueta dos dois navios, que estavam desesperadamente tentando se mover para fora da zona de combate. O final poderia ter sido catastrófico, pois os dois navios franceses estavam completamente lotados com soldados e civis.
A situação era agora crítica para os italianos. Iachino atacava o inimigo, mas logo os pesados canhões do HMS Renown poderiam fazer a batalha pender para os britânicos. Felizmente para Iachino, por volta das 1300, inimigo estava dentro do alcance de fogo do Vittorio Veneto, que prontamente disparou dezenove cargas, em sete salvas. Assim que os cruzadores britânicos perceberam que estavam sob fogo pesado, rapidamente se retiraram sob a proteção Renown.
Campioni manobrou então sua frota e partiu para sua base. Ao todo, a batalha durara 54 minutos. O comboio “Collar” chegou a Malta a salvo, sem nenhum outro incidente, o vice-almirante Somerville posteriormente teve que responder a um inquérito militar por não ter perseguido a força italiana. Acabou sendo exonerado.



















































Comentários