Armas Químicas na Grande Guerra
Historicamente, o uso de agentes químicos em combates, é conhecido desde a antiguidade. Existem relatos na China, do uso de gases asfixiantes (fumaça proveniente da queima de plantas com propriedades irritantes) por volta do Século IV A.C. No ocidente, os mais antigos relatos do uso de agentes químicos datam do Século V A.C. Durante as “Guerras do Peloponeso” (431 – 404 A.C), os espartanos preparavam fogueiras usando madeira, uma substância parecida com piche (provavelmente alcatrão) e pedras de enxofre. Quando os soldados atenienses se punham em avanço, as fogueiras eram acesas e o inimigo tinha que se dispersar para evitar a asfixia e mesmo para poderem ver o que estava à frente. Na Idade Média também teve uso, mas com o passar do tempo caiu em esquecimento.
O uso maciço de agentes químicos na Grande Guerra foi sem dúvida, uma triste reedição de tão antiga prática. Os gases usados variavam desde agentes irritantes, como o gás lacrimogêneo (e o mais severo deles, o gás mostarda), até gases letais, como o fosgênio.
Os primeiros ataques

22 de abril de 1915. A Alemanha usa pela primeira vez agentes químicos em larga escala. Na foto um soldado corre ao largo da nuvem de cloro usando como proteção somente uma pequena máscara, provavelmente embebida em água.
Agentes químicos foram utilizados desde o início da Grande Guerra. É comumente atribuído aos alemães o primeiro uso destes agentes, no entanto existe uma controvérsia quanto a isso. Existem indícios de que quem primeiro utilizou agentes químicos foram os franceses em agosto de 1914. Eles teriam lançado contra tropas alemãs algumas granadas de gás lacrimogênio. A Alemanha retaliou em outubro de 1914, adicionando dianisidina clorosulforada ao TNT usado em suas granadas de fragmentação, estas granadas foram disparadas contra posições francesas em Neuve Chapelle. Porém a concentração era muito baixa e o fato mal foi noticiado.
Mas foi mais tarde, no dia 31 de janeiro de 1915, que o uso em larga escala de agentes químicos realmente teve início. A Alemanha disparou 18000 granadas de artilharia, contendo gás lacrimogêneo (conhecido como T-Stoff e pertencentes ao grupo denominado Weisskreuz - Cruz Branca), contra as posições russas no rio Rawka, a oeste de Varsóvia, durante a Batalha de Bolimov. Mas ao invés de se vaporizar, o agente químico congelou, falhando completamente.
O primeiro gás letal utilizado militarmente pela Alemanha foi o Cloro. O conglomerado alemão IG Farben vinha obtendo o cloro como um sub-produto em sua unidade de produção de corantes. Com a cooperação de Fritz Haber, do Instituto Kaiser Wilhelm, de Berlim, iniciaram então os desenvolvimentos de métodos para usar gás de cloro contra as trincheiras inimigas.
No dia 22 de abril de 1915, o exército alemão contava com 160 toneladas de gás de cloro, armazenadas em 5730 cilindros, ao norte de Ypres. Às 17:00 horas, quando a brisa da tarde começou a soprar, o gás foi liberado, criando uma nuvem verde acinzentada, que rapidamente se espalhou em direção às trincheiras francesas. As Tropas Coloniais Francesas, que guarneciam as trincheiras, abandonaram os postos, criando uma brecha de sete quilômetros de extensão na linha de defesa aliada. Entretanto, a infantaria alemã, que se ressentia de reforços, e também estava assustada com o gás, não soube explorar a ruptura das defesas inimigas antes da chegada de reforços canadenses e britânicos.
Além dessa ocasião (que viria a se transformar na Segunda Batalha de Ypres), os alemães usaram armas químicas em mais três ocasiões. No dia 24 de abril foi usado contra a 1ª Divisão Canadense, no dia 02 de maio foi usado novamente e no dia 05 de maio, foi usado contra os britânicos na “Colina 60”. Naquele estágio da guerra, não existiam defesas contra gases. A respeito do ataque sofrido na Colina 60, consta oficialmente nos registros britânicos:
“90 homens morreram envenenados por gás nas trincheiras; dos 207 levados às estações de socorro mais próximas, 46 morreram quase imediatamente e 12 morreram após longo sofrimento.”
O gás de cloro é ineficiente como arma, por questões puramente técnicas:
Ele produz uma nuvem esverdeada perfeitamente visível, além de um odor muito forte, o que o torna de fácil detecção. Além disso, é solúvel em água, o que faz com que o simples fato de cobrir a boca e o nariz com um pano molhado, reduz drasticamente seus efeitos. À época pensava-se que era mais eficiente utilizar urina (ao invés de água) para molhar o pano que cobria o rosto, isto porque a amônia neutralizaria o cloro, mas posteriormente se descobriu que a combinação de amônia e cloro produz gases bastante tóxicos. O gás de cloro requer uma concentração de 1000 partes por milhão para ser fatal, destruindo o tecido pulmonar.
Mas mesmo com todas estas limitações, teve um bom efeito como Arma-de-terror. O simples sinal de uma nuvem de gás se movendo, servia para transmitir grande medo e preocupação a toda uma tropa entrincheirada.
Inicialmente os britânicos expressaram indignação para com a Alemanha, pelo uso de agentes químicos em Ypres, fato que foi inclusive motivo de discurso por parte de alguns oficiais. Porém o exército britânico acabou por adotar esta idéia com bastante entusiasmo, tendo realizado ataques empregando gases, numa quantidade superior a qualquer outro dos combatentes.
Um dos fatores que propiciou este tipo de ataque por parte dos britânicos, foram as condições metereológicas. No fronte oeste, a predominância dos ventos era de oeste para leste, favorecendo assim muito mais os ataques britânicos do que os ataques alemães.
O primeiro uso de agentes químicos por parte dos britânicos ocorreu no dia 25 de setembro de 1915, na Batalha de Loos, mas em termos militares foi um desastre. Foram utilizadas 140 toneladas de Gás Cloro, (codinome Red Star). O sucesso do ataque dependia de condições de vento favoráveis, mas ironicamente o vento mudou sua direção após o ataque ser iniciado e grande parte do gás se espalhou pela “Terra de Ninguém” e em alguns pontos acabou por voltar às trincheiras britânicas.
A deficiência do Cloro logo seria suprida, ainda em 1915, pela introdução do Fosgênio, utilizado primeiramente pela França, sob coordenação do químico Victor Grignard. Incolor e com odor semelhante a “feno cortado”, era muito difícil de ser detectado, porém era bastante denso. Foi o segundo agente químico mais produzido durante a Grande Guerra.
O Fosgênio foi utilizado por ambos os lados, posteriormente os alemães, sob coordenação do químico Fritz Haber acrescentaram pequenas quantidades de Cloro para aumentar sua toxidade. Quando o Cloro era misturado em igual volume, possibilitava uma aspersão melhor do denso Fosgênio. A Entente denominava essa combinação de White Star, sendo que as granadas com essa mistura eram marcadas com uma estrela branca. O Fosgênio, como agente letal era tão poderoso quanto o Cloro, mas seus efeitos muito mais prolongados, chegando a causar distúrbios por até 48 horas após a exposição. Essa característica também o transformava num poderoso agente incapacitante.
O primeiro ataque de Cloro combinado com Fosgênio (denominado Grünkreuz – Cruz Verde pelos alemães) contra tropas britânicas se deu no dia 19 de dezembro de 1915, em Nieltje , nas proximidades de Ypres, na Bélgica. Foram lançadas 88 toneladas do produto contra as posições inimigas. Este ataque causou 1069 baixas, incluindo 69 mortes.
1917 – Surge o Gás Mostarda
Os “Mostarda de Enxofre” ou simplesmente “Gás Mostarda” é um agente químico vesicante, utilizado como arma. Quando em sua forma pura, é incolor, inodoro e líquido à temperatura ambiente. Na forma comumente utilizada como arma química, tem coloração marrom-amarelada e tem um odor que lembra a mostarda.
É conhecido por diversas nomenclaturas: HD, senfgas, Mostarda de Enfofre, Gás Vesiculoso, s-lost, lost, Kampfstoff LOST (a abreviação LOST refere-se aos nomes de Lommel e Steinkopf, que desenvolveram o processo de produção em massa durante a Grande Guerra, para a companhia alemã Bayer AG.), Cruz Amarela e Yperita.
Foi empregado pela primeira vez em julho de 1917, na “Terceira Batalha de Ypres”. Empregado inicialmente pelos alemães, foi apelidado pelos britânicos de HS (Hun Stuff). Ficou conhecido também como “Yperita” porque o local onde se deu seu uso foi nas proximidades de Ypres. Após o ataque os britânicos decidiram criar seu próprio arsenal de gás mostarda (mas o único meio que lhes era possível à época era o processo Despretz–Niemann–Guthrie ), que foi utilizado pela primeira vez em setembro de 1918, durante o ataque à Linha Hindenburg.
O gás era dispersado via aérea, em combinação com outros agentes químicos, o que lhe atribuía a coloração amarelada e o odor característico. Lançado através de granadas de artilharia, bombas aéreas, minas terrestres, morteiros, obuseiros e mesmo foguetes, teve uma taxa de letalidade de apenas 1% dos casos.
Sua principal efetividade era como agente incapacitante, uma vez que não existiam medidas de proteção eficazes contra a exposição deste agente. Mesmo que o soldado esteja utilizando uma máscara, o agente ataca a pele.
Uma característica deste tipo de agente químico é o surgimento imediato dos sintomas como vesículas e queimaduras. Em muitos casos, os efeitos continuavam a surgir até 12 horas depois da exposição. Apesar de não ser a intenção primária do uso deste tipo de agente, quando a exposição era elevada, se tornava letal, causando a morte entre 3 e 5 minutos, o que proporcionava ainda mais um estado de desorientação das tropas.
Além disso permanece ativo por um longo período. Quando o gás contaminava as vestes e equipamentos de um soldado, os outros soldados que tinham algum contato com este, também eram envenenados. Quando absorvido pelo solo, permanecia ativo por diversas semanas, evaporando-se muito lentamente, mesmo à noite, o que obrigava soldados de regiões muito contaminadas a abandonarem suas posições.
Os soldados expostos a este agente químico sofriam graves lesões nas áreas expostas, sofriam cegueira temporária, vômitos, tinham os pulmões afetados, geralmente causando inflamação nos brônquios, sofriam hemorragias internas e/ou externas, causadas pelo rompimento de veias, tinham a mucosa atacada, o que causava seu desprendimento e com isso mais sangramentos e uma dor insuportável. Era comum nos hospitais, vítimas deste tipo de envenenamento, serem abrigadas a ser amarradas à cama, tamanha a dor.
Apesar de não ser a intenção primária do uso deste tipo de agente, quando a exposição era elevada, se tornava letal, causando a morte entre 3 e 5 minutos
Baixas
A letalidade das armas químicas era extremamente limitada, somente 3% das mortes em combate se deveram à ação dos gases. Em contrapartida, os totais de baixas não-fatais foram elevados e, sem dúvidas, as armas químicas incutiram um grande temor nas tropas, agindo muito mais como arma de efeito psicológico. Por ser possível desenvolver contramedidas eficazes contra ataques, era uma arma totalmente diferente das outras adotadas no mesmo período. Nos estágios finais da Guerra, o uso de armas químicas aumentou, entretanto sua efetividade diminuiu.
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Nação |
Baixas causadas por agentes Químicos (estimadas) |
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Fatais |
Não fatais |
|
|
Rússia |
50,000 |
400,000 |
|
Alemanha |
10,000 |
190,000 |
|
França |
8,000 |
182,000 |
|
Grã-Bretanha |
8,000 |
181,000 |
|
Áustria-Hungria |
3,000 |
97,000 |
|
EUA |
1,500 |
71,500 |
|
Itália |
4,500 |
55,000 |
|
Total |
85,000 |
1,176,500 |






































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